quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Crônica: Dia de Finados Sem Flores







Meu avô era católico.
    Descendente de escravos, filho de uma católica fervorosa e de um pai ausente, ele nunca foi daqueles que te falam a respeito de sua doutrina ou lhe força a seguir o que ele considerava o certo. Mas era daqueles que não perdiam a missa de domingo, nem a Santa Missa às cinco da manhã na Globo. Adorava o papa Bento XVI e tinha Francisco como seu pai. Devoto de Nossa Senhora e de Aparecida, não perdia a festa do Morro da Conceição, na zona norte do Recife.
    Minha bisavó havia morrido há quatro anos e ele (mesmo sentindo grandes dores nas pernas devido a diabetes) nunca perdia o dia de Finados para lhe levar flores e colocar um novo rosário sobre o túmulo, já que a segurança do cemitério não era das melhores e sempre acabavam roubando o rosário. Ele visitava seu túmulo apenas duas vezes no ano: no dia do aniversário dela, 22 de março, e no dia de Finados. Comprava sempre numa pequena barraca perto do portão do cemitério, lotada de flores até em cima, com um velhote magricela chamado Seu Jorge. Conversavam durante um tempo sobre morte, vida, Cristo e como Nossa Senhora era boa tanto para Seu Jorge quanto para meu avô. E então ele partia para dentro do cemitério, andava pelo labirintos de lápides, túmulos, gigantescas gavetas de mármore, o mar de gente, o cheiro das flores, pétalas que caíam e eram pisoteadas pelos passantes, tristes, lágrimas, o ar cheio de "Meu senhor Jesus Cristo" ou "sinto tanto a sua falta" e mais lágrimas. Ele acabava sempre comprando a mesma combinação de buquê: margaridas, rosas vermelhas e copos-de-leite. Dez de cada, faça o favor.
    No último dia de Finados que passou vivo (isto no ano passado), meu avô acabou se atrasando devido a um grande engarrafamento no outro lado da cidade, causado por um acidente terrível entre um ônibus e um carro de passeio; terminando em quatro mortes. O trânsito estava um horror. Quatro horas dentro de um ônibus esperando que as ambulâncias chegassem, a polícia, a perícia... Em vez de chegar às seis da manhã, como sempre fazia, chegou às dez e poucas. Seu Jorge já havia vendido todo o seu estoque e os outros vendedores não tinham as flores que ele gostava. Dez barracas e nenhuma tem copo-de-leite, que absurdo! E nenhuma faz buquê com rosas vermelhas e margaridas? É por isso que o país não vai pra frente!  Pois é. Pois é.
   Acabou-se, pois então, ele comprando um rosário, um pequeno retrato de São Jorge, do qual sua mãe era devota, e orou por sobre o túmulo, desculpando-se entre um Ave Maria e outro pela falta das flores.